Isolamento
Muito tempo se passou, creio que foi o período que menos escrevi, que menos me organizei. Na verdade me desorganizei toda. Nunca estive tão perdida, tão insegura. Antes mesmo de 2020, ainda em 2019, comecei planos e desisti deles tão rápido, decisões grandes e em algum momento eu fechei meus olhos e só fui, segui em frente como meu coração mandou.
E 2019... 19, quem diria, esse número ficaria comigo em pleno 2021. Em minha última reflexão mencionei que iriamos mudar de cidade, bem, não foi como planejávamos naquele fevereiro. Acabamos decidindo por ficar, mas o destino queria que eu mudasse, foi maior que eu, eu tentei ficar, mas tudo que eu mais queria naquele momento aconteceu, no seu tempo, no seu jeito.
Primeiro a desistência.
Largar antes mesmo de começar, foi intenso, deixei um mestrado para cursar outro, não precisaríamos nos mudar e eu poderia ficar mais tempo. O novo curso foi intenso e menos pesado psicologicamente, não sei porque alguns programas de pós graduação tem a necessidade de serem tão pouco acolhedores, tão destrutivos. Eu estava precisando ser acolhida, ser encaixada e foi ótimo. Nenhum trauma de pós-graduação, nenhuma depressão por esse motivo, ao contrário, lá foi onde me permiti crescer e florir. Consegui lidar melhor comigo tendo bons apoios.
Mas aí eu tive despretensão e fiz algumas provas, sem menos esperar, uma prefeitura me chamou e lá viemos nós, sem saber que seria o período mais intenso dos últimos tempos, na história da humanidade. Viemos cheios de planos, cheios de intenções para descobrir o novo. Então viemos para outra cidade e você sabe né? Se você estava vivo em 2020, você sabe o que houve com o mundo depois disso.
Pandemia.
Mesmo antes de eu me adaptar à nova rotina, mesmo antes de eu relembrar como era ser fisioterapeuta hospitalar o mundo virou. Eu ainda me sentia muito insegura, minha vida ainda estava no processo de se organizar. Eu estava em outra cidade e não sabia nem andar nas ruas. Não conhecia nem meu bairro. Odiava me sentir tão vulnerável. E no meio dessa adaptação eu tive que aprender a lidar com uma pandemia!
De certa forma ficou mais fácil, eu podia dividir muitas das minhas frustrações, com todos outros planos sendo frustrados também. A dor compartilhada fica mais fácil de ser suportada, mas a dor se tornou tristeza e demorou muito pra se tornar aprendizado e força. O mundo mudou pra todo mundo, felizmente eu tinha de onde tirar sustento, força e conforto. E isso me motivou muito ao longo desses meses intermináveis.
No início pensávamos que seriam alguns dias, talvez alguns meses, com medo de que o descontrole levasse a serem anos. E sem muita surpresa, mas contra todos os pensamentos otimistas, o ser humano não soube e ainda não sabe muito bem como lidar com a doença e nem com as prioridades do mundo moderno.
Eu tento estabelecer prioridades, em que dedicar minha força e meu esforço, meus dias e noites. Sinto que o mundo nunca mais será o mesmo, mesmo que alguns ainda gritem para tudo voltar ao normal. Eu sinto que o modo que a humanidade se desenvolve nunca foi constante, por que agora deveria ser? Por que agora deveríamos manter as relações, as atividades e os planos tão engessados.
Mais de uma vez já me falaram sobre a minha facilidade de adaptação, eu sei que não é nada fácil se reinventar, se moldar, se perder por algum tempo para então, enfim, possivelmente se encontrar novamente. Muita gente precisou desistir de coisas em 2020, muita gente foi obrigada a desistir, sem opção e alguns não terão a chance de uma dia tentar outra vez.
À eles, às famílias, à saudade, meus sentimentos às perdas irreparáveis. Hoje, um ano e quase quatro meses depois dessa loucura toda, mais de 3 mil pessoas morrem por dia no Brasil por causa do vírus. E infelizmente ainda não temos uma saída.

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