E o equilibrista?
O homem, que já não tem períodos sóbrio, estalou a palma da mão uma única vez pra chamar minha atenção ao portão da minha casa. Estive com medo por alguns segundos da figura que estava ali, mesmo estando longe de mim, fiquei na porta da casa, com a mão na fechadura, o que ele poderia querer?
"Uma bolsa velha, daquelas que ficam jogadas num canto moça..."
Esse foi seu pedido, porque as sacolinhas que carregava eram frágeis e rasgavam, estouravam e então ele perdia a comida que acabou de ganhar.
"Eu não tenho bolsa velha." Realmente, velha jogada no canto eu não tenho mais, mas a frase saiu meio que no automático, não saberia explicar porque a gente sempre recorre a nem ao menos querer escutar.
Então ele continuou, "eu vim de São Paulo, é longe." "É longe sim." "Eu usava, sabe? Mas... e faz dois anos e meio que não vejo minha mãe, a mãe é tudo pra um filho!" "É sim." Me rendi, já estava interessada na conversa insana do bêbado.
"Agora eu sou um andarilho" e começou a rir. "Agora eu fico ai nas ruas pedindo, moro lá!" Apontou aleatóriamente pra um lado, "Lá eu ganhei umas panelas, dai eu cozinho, mas tenho que pedir a comida crua pra cozinhar..." "Vai vender" logo eu pensei.
"Mas eu queria uma comida então, se você puder me dar, crua, eu cozinho, eu vim lá de São Paulo, é longe, não dá pra voltar a pé, ganhei umas panelas pra cozinhar, mas eu não tenho o que por dentro das panelas, a assistente social não quis me dar a passagem, mandou eu ir na prefeitura..."
Então fui pegar qualquer coisa que custasse bem pouco ou que não tivesse valor de troca por drogas e qualquer outra coisa. Umas bolachas ou um miojo, achei que as bolachas ele não venderia, e uma sacola mais forte pra ele carregar as coisas que ganhou.
Ele ria esperando eu voltar.
Sua alegria artificial, misturava-se com a tristeza profunda que realmente sentia, dava pra ver nos olhos, na exposição da roupa suja. Quem é que gostaria de viver assim? Foi o que lhe restou, ser andarilho, com conversas sem continuidade, assuntos de uma vida que talvez fosse verdade, pode ser que a saudade de casa exista mesmo, na cura do porre que toma a cada dia pra fugir da própria realidade.
"Ah! Mas a tua sacola é mais forte que a minha! Eu ia pedir. Que Deus abençoe menina." "A você também!"

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