Olha nós aqui mais uma vez, fica difícil escrever depois de tanto tempo, mas é só olhar todas as anotações, todos os meus mapas, todas as fotos e aí toda a dificuldade cai por terra. É incrível reviver essas memórias e eu gosto tanto de compartilhar em algum lugar, pra tentar mostrar um pouquinho, em uma leitura de minutos tudo aquilo que vivemos lá.
Enfim, estávamos nós em Amsterdã, prontos para correr pegar o ônibus, fomos até a mesma estação onde descemos, Sloterdijk. Ficamos esperando, nessa vez havia muito mais pessoas junto com a gente lá. Era quase uma rodoviária, é uma estação de trem e metrô, mas os ônibus ficam ali na rua e sem cobertura. Finalmente o ônibus chegou e foi uma das experiências mais legais da viagem toda, acredite. Este ônibus era Flixbus, o motorista foi muito gentil e muito engraçado. Saímos da rodoviária estava no entardecer, escolhemos esse horário para passar a noite dormindo, assim como fizemos do UK para a França, economizar um pernoite.Por lá - já não lembro se cheguei a comentar - mas os motoristas tem um microfone e passam algumas informações antes e durante a viagem, solicitam cinto e vendem alguns itens comestíveis. Nada muito fora do comum. Mas nesse dia, nessa rota - não sei se são sempre assim - fomos conduzidos pelo motorista Capitão Sparow, sim, ele se apresentou assim para nós, enquanto a musica subia e baixava. Então ele se certificou com voz de radialista de horário de romance - imaginou? - de passar todas as recomendações, pediu pelos clics do cinto de segurança e brincou com as luzes verdes do veículo, até se despedir, depois de nos fazer rir e relaxar com um boa noite. Foi um começo de viagem muito legal! No meio da viagem, em algum lugar da Alemanha fomos parados para conferência dos documentos e então seguimos. Eu não senti cansaço, apesar das 12 horas de viagem, foram menos penosas para meus pés que as 9 horas anteriores e descemos em um ponto final bem próximo da Kaisedamm Station, então dali pegamos U- e seguimos para próxima casa que ficava bem longe dali na Friedrichshain.
Chegamos cedo para o horário do check-in, mas demoramos mais que o que previmos, estávamos pesados e cansados depois de tantas horas para caminhadas. A estação era bem próxima, mas pesou a jornada. Chegando na casa fomos recebidos por uma amiga do host, ele estava se preparando para o festival que teria em breve e nós tivemos a casa só para nós nesses dias, foram muito solícitos e a mulher que limpava o apartamento era de Portugal e fomos recebidos com um "Bom dia" ora poix, é sempre tão bom ouvir o próprio idioma depois de um tempo né? Assim na surpresa...
O apartamento era no térreo e realmente incrível a arquitetura e o ar que esse lugar nos trouxe. Cheio de traços e referencias ao que conhecemos do leste europeu, linhas arquitetônicas retas e grandiosas, avenidas largas, prédios sem portão e com pátios arborizados enormes entre eles. Segurança em só ter uma janela e persianas grossas nos separando da rua. Uma sensação incrível. O que estamos perdendo vivendo a insegurança por aqui no Brasil em? Por lá muita evolução para um país que sofreu com guerra e separações, dominados por tanta gente até tão pouco tempo. Não tem como ir para Alemanha e não refletir sobre o mundo, o contexto social, sobre a história e toda a tristeza que o ser humano pode trazer para o seu semelhante.
Ouvimos dizer, quando contávamos que iriamos para a Alemanha, que Berlim era triste. E é sim. Que não era bonita, mas precisamos ver essas histórias, ver e não só ouvir falar, não é bom apagar essa ferida, ela ainda está aberta, já pensou se tivessem enterrado e esquecido? Se não houvesse museus para que o povo aprenda de onde veio. Hoje eu tenho uma bagagem mais triste sobre o valor dado ao que é história brasileira, desde que voltamos da viagem eu tenho sofrido com tanta intolerância, tanta mentira sendo notícia, tanto passado virando cinzas e tenho refletido muito sobre isso, quando é que passamos a parar de gritar diretas para suplicar por intervenção militar? Foi quando nos sentimos inseguros? Ou quando não entendemos direito o que houve no mundo antes de nós? Sinto tanto por isso, sinto mesmo.
Eu penso que não saber lidar com o fracasso como povo. Pois sim, estamos arrasados como nação. Lá eu senti isso, alguns queriam apagar essa história, mas é preciso saber onde erramos como povo para então melhorar e pelo menos tentar evitar que se repita. Por aqui não tomamos para si a responsabilidade das falhas, mas deveríamos. Por aqui tentamos apontar culpados e continuamos agindo de maneira fugaz e despretensiosa, entregando ao outro, ao superior a responsabilidade de melhorar, de crescer, de produzir. Nunca será unanimidade agir do jeito certo, mas qualquer ação já é um começo, se a maioria reprovar e tentar corrigir o erro teremos muitos lutando para um futuro melhor. Eu sinto que hoje a maioria está no caminho mais fácil, tomando um lado para odiar em vez de tentar mediar. Espero que nosso caminho seja melhor.
Desculpa pelo desabafo, mas ando pesada. Talvez me aproximar do outro nessa viagem me trouxe muita reflexão a respeito de mim mesma e minhas motivações e decisões. Acho que é pra isso mesmo que saí de casa, além de conhecer lugares, conhecer culturas e vivenciar experiências modificadoras.
Fiquem hoje com essa reflexão e como fotos desse primeiro dia. Claro que toda essa experiência vai sair num próximo post bem logo, hoje precisei colocar as ideias no lugar e não conseguia contar o roteiro antes de fazer uma breve introdução.
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| East Side Gallery |
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| East side Gallery |
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| Nosso quarto direto pra rua. |
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| Quintal :P |
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| Rio Spree |
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| Oberbaumbrucke, ao fundo a antena de TV da Alexanderplatz. |
Essas fotos são da região de Friedrichshain, no primeiro dia chegamos a fazer uma caminhada e pudemos ver com calma o East Side Gallery, fomos até um mercado próximo para comprar as comidinhas da semana e claro poder sentir a vibe deste lugar. Conhecido por ser o bairro badalado, jovial, com bares e movimento, sim, tinha muito disso também, mas o conjunto de prédios tinha a sua calma de casa, suas árvores e seu silêncio. Ruas bem próximas nutriam a badalação e pudemos presencia-la em outros dias.
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